Fundação espanhola faz 'expressivo investimento' nos cuidados paliativos do nosso país

Data: 2018-10-18

A Fundação "La Caixa", em colaboração com o Ministério da Saúde e Secretarias Regionais da Saúde dos Açores e da Madeira, criou o Programa Humaniza para, nos próximos seis anos, contribuir para a melhoria da qualidade de vida das pessoas com doenças avançadas e suas famílias em Portugal. A notícia deste expressivo investimento filantrópico em cuidados paliativos até à data no país foi divulgada pela Profa. Doutora Bárbara Gomes, num artigo de opinião publicado no Jornal Público, a poucos dias do IX Congresso Nacional de Cuidados Paliativos/8º Congresso de Cuidados Paliativos do IPO-Porto:

Artigo na íntegra:

Cuidados paliativos: o futuro não bate à porta

Face a todos os desafios, 2018 marca a chegada do mais expressivo investimento filantrópico em cuidados paliativos até à data no país.

A Dona Maria vive com demência, agora em fase avançada, há 15 anos. É um dos casos clínicos complexos que será discutido este mês na abertura do IX Congresso Nacional de Cuidados Paliativos e 8.º Congresso de Cuidados Paliativos do IPO Porto, dedicado a "Preparar o Futuro, Novas Soluções". A Dona Maria não é um caso típico de um doente seguido por uma equipa de cuidados paliativos. A grande maioria tem cancro. Mas a Dona Maria tem necessidades paliativas tão ou mais complexas do que uma pessoa com cancro avançado. Tem direito, segundo a Lei n.º 31/2018, a receber cuidados paliativos através do Serviço Nacional de Saúde. O número de pessoas que, como a Dona Maria, vivem com demência é previsto triplicar até 2050.

As equipas de cuidados paliativos são compostas, na sua base, por quatro grupos profissionais: médicos, enfermeiros, psicólogos e assistentes sociais; e a maioria cumpre este requisito. Porém, o apoio prestado, sobretudo por psicólogos e assistentes sociais, é insuficiente face às necessidades: nas equipas onde existem, estes profissionais contabilizam apenas 15 a 18 horas de apoio por semana, segundo dados do Relatório Primavera 2017 do Observatório dos Sistemas de Saúde. Note-se que em Portugal morrem por ano cerca de 75.000 pessoas por doenças que poderiam beneficiar de cuidados paliativos, e que por doente há normalmente dois a cinco familiares envolvidos, com direito a receber também eles apoio, não só no processo de doença mas também durante o luto. É igualmente preocupante a escassez de médicos com reconhecida competência em medicina paliativa (menos de 60), o que entrava a criação de novas equipas.

Os cuidados paliativos são mundialmente uma área negligenciada em investigação. No Reino Unido, atrai apenas 0,5% do financiamento para investigação em oncologia. Esta percentagem é ainda menor em Portugal. No último concurso de projetos aprovados pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia apenas um em 1618 projetos é sobre cuidados paliativos. Existe uma rede de investigadores, o Observatório Português de Cuidados Paliativos, mas não há ainda centros internacionalmente competitivos. Sem ciência não há evidência, e sem evidência não há práticas informadas, melhorias nos cuidados e garantias de que as necessidades são supridas.

Face a estes desafios, 2018 marca a chegada do mais expressivo investimento filantrópico em cuidados paliativos até à data no país. A Fundação "La Caixa", no âmbito da sua intervenção social em Portugal, criou o Programa Humaniza, que se desenrolará durante os próximos seis anos (2018-2023), em colaboração com o Ministério da Saúde e Secretarias Regionais da Saúde dos Açores e da Madeira, com o objetivo de contribuir para a melhoria da qualidade de vida das pessoas com doenças avançadas e suas famílias em Portugal, atendendo sobretudo aos aspetos emocionais, sociais e espirituais. O Programa arrancou com dez novas equipas de apoio psicossocial, que estão a ser constituídas e treinadas para passar ao terreno este ano. Nas próximas semanas abrirá um concurso de apoio a movimentos associativos para implementação de projetos inovadores de sensibilização pública e promoção de apoio no âmbito psicossocial e espiritual. O Programa apoiará também a qualificação de especialistas em cuidados paliativos, começando com dez bolsas para médicos, o que aumentará em 20% o número de médicos com reconhecida competência em medicina paliativa no país. Apoiará ainda a constituição de novas e modelares equipas domiciliárias de cuidados paliativos, começando com cinco, o que aumentará também em 20% o número destas equipas no país.

O futuro traz desafios e oportunidades para cuidarmos melhor de doentes como a Dona Maria. O futuro não bate à porta: já entrou.

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